A Estética da Inépcia: Como o Poder Transfigura o Fracasso em Propaganda Pública - Rio Grande do Sul & Porto Alegre



Habitamos uma era de vigarice semiótica institucionalizada. Na sarjeta política da pós-verdade e do marketing governamental, as palavras e os fatos sofreram um divórcio litigioso e definitivo. Friedrich Nietzsche já havia diagnosticado que não existem fatos, apenas interpretações; hoje, as secretarias de comunicação e os prefeitos de plantão elevaram esse cinismo ao status de política de Estado. Para a máquina pública contemporânea, a realidade material não importa. Uma promessa vazia não precisa de lastro, de tijolo ou de asfalto; ela só precisa ser chancelada pelo topo da cadeia alimentar do poder para ser vendida como verdade absoluta a uma população dopada por telas.
O reflexo mais violento e covarde dessa dinâmica não está nas teses acadêmicas, mas no lombo do cidadão que amarga horas na parada de ônibus, sob o sol ou a chuva, esperando por fantasmas. Porto Alegre converteu-se no laboratório perfeito para essa autópsia da incompetência governamental gaúcha.


O Escárnio de 2014 e o Conto da Carochinha Ecológico
Há mais de uma década, a capital dos gaúchos foi estuprada por uma enxurrada de promessas de modernização estrutural para a Copa do Mundo de 2014. O tão paparicado sistema de BRT (Bus Rapid Transit), vendido como a salvação da mobilidade nos eixos da Protásio Alves, Bento Gonçalves e Assis Brasil, apodreceu antes mesmo de nascer. Tornou-se um monumento porco à incompetência crônica e suprapartidária de sucessivas gestões. O BRT de Porto Alegre nunca existiu fora do papel. O que sobrou para o trabalhador foi o asfalto estraçalhado, corredores medíocres, terminais dignos do século passado e uma frota a combustão sucateada que opera no limite da dignidade humana.
Para camuflar o vazio absoluto de suas entregas, os gestores públicos apelam para a transfiguração do sentido através de uma maquiagem verde (greenwashing) vagabunda. Anúncios pomposos sobre a "eletrificação da frota" e contratos de financiamento milionários com o BNDES são despejados na imprensa como se o problema estivesse resolvido. Nas ruas, contudo, os ônibus elétricos continuam sendo uma miragem de relações públicas.
A desculpa oficial da prefeitura de que a transição é lenta porque exige "testes prolongados e minuciosos" é de uma pieguice pífia. Cidades como São Paulo rasgaram o manual d
a hesitação burocrática e já operam frotas elétricas robustas e validadas. A retórica dos testes em Porto Alegre não é prudência técnica; é a confissão covarde da incapacidade de execução, uma formalidade cínica erguida para encobrir a paralisia administrativa de quem não sabe gerenciar uma cidade.

A Tragédia de 2024 como Salvo-Conduto para a Burrice

Mas todo governante inepto precisa de uma muleta moral para escapar do linchamento nas urnas. Em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, a catástrofe climática de 2024 foi recebida pela classe política como o álibi perfeito dos deuses. A dor legítima, o luto e o trauma de uma população flagelada foram asquerosamente instrumentalizados como uma justificativa universal para todas as cagadas e omissões do passado, do presente e do futuro.
Se o transporte é um lixo, se as obras de saneamento e mobilidade estão congeladas, se os prazos caducam de forma vergonhosa, a culpa agora é retroativamente jogada no colo da enchente. O colapso ambiental virou o escudo supremo da burrice institucional. A tragédia, que deveria ser um motor de reconstrução urgente e disruptiva, passou a operar como uma cláusula de exclusão de culpa para governantes inoperantes que preferem chorar sobre o leite derramado a assumirem o comando do leme.


O Ruído dos Sonolentos

Enquanto a infraestrutura real da cidade desaba sob o peso de frotas obsoletas e prazos estourados, o poder público segue flutuando em um universo paralelo de metafiguras — discursos desprovidos de substância que orbitam o infinito das redes sociais e das propagandas de rádio e TV.
Nesse jogo de espelhos deformados, o sofrimento diário do cidadão desaparece das prioridades. Resta apenas o ruído ensurdecedor da vaidade de burocratas sonolentos, que descobriram que, no Rio Grande do Sul de hoje, gerenciar a percepção de uma obra fictícia dá muito mais curtidas e dá muito menos trabalho do que, de fato, criar vergonha na cara e terminá-la. É hora de acordar esse cemitério administrativo.


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